Maionese

Ato 1

Maionese! Gabi nunca tinha visto alguém comer tanta maionese! Ele tirava de dentro do casaco inúmeros sachês de maionese, e enchia os sanduíches com eles. E tinha uma prática incrível, pois conseguia comer sem derrubar maionese no jornal que estava lendo! Era ruivo, com cabelos tão vermelhos que só podiam ser pintados. De qualquer maneira, era o único no refeitório, portanto só podia ser ele.

Gabi: "Olá. Desculpe interromper, mas por acaso você é o César?"

César: "Sim, sou eu mesmo. Está servida?"

Gabi: "Não, obrigada, eu já almocei. Ahn, você sempre anda com maionese no casaco?"

César: "Os sabores que eu gosto são díficeis de encontrar, por isso eu sempre trago minhas próprias doses. Esse sachê vermelho, por exemplo, tem maionese picante, mas esse eu não ofereço, pois é forte demais. De qualquer maneira, você ainda não se apresentou..."

Gabi: "Ah sim! Meu nome é Gabrielle, e sou a nova recruta aqui do departamento! Acabei de fazer os testes, o sujeito bigodudo que me avaliou disse que eu era perfeita para esse departamento! Não vi o resultado do teste, mas aposto que fui muito bem!"

César: "O tal do sujeito bigodudo é o Coronel, e aquela sala que ele usa para aplicar o teste é horrível. Aquelas carteiras não são boas para canhotos como eu. Mas não precisa ver o resultado, você foi muito bem no teste de conhecimentos, mas se deu mal no teste psicólogico."

Gabi: "Hã? Como você sabe?"

César: "Se ele te mandou para esse departamento, então você não é normal. Só tem gente maluca aqui, e para nós só sobra investigar os casos esquisitos. Veja o caso que temos que analisar hoje, por exemplo: Você soube o que aconteceu no zoológico?"

Gabi: "Eu vi algo no jornal, um dos zeladores foi assassinado, não foi?"

César: "Não foi só isso, o assassino também matou todos os grous do zôo. Você sabe o que é um grou? "

Gabi: "Sim, quando criança eu queria ser veterinária, por isso entendo de animais. Grou é uma ave, parecida com a garça, mas acho que tem algumas espécies coloridas. Mas para que alguém iria matar um monte de grous? "

César: "É isso que temos que descobrir. Vamos até o zoológico ver se achamos alguma pista."

Ato 2

A cena no zoológico não era das melhores. O corpo do zelador morto já tinha sido retirado, mas as aves ainda estavam decapitadas no chão. César estava interrogando o outro zelador do local, enquanto Gabi cobria o nariz com as mãos.

Gabi: "Eca! Que cheiro podre! Não sabia que logo no meu primeiro caso teria que aguentar um cheiro tão ruim assim..."

César: "Você queria que corpos tivessem cheiro bom?"

Gabi: "...e não é só o cheiro, tem essas moscas em cima de mim! Como você faz para as moscas não ficarem te incomodando?"

César: "Para começar, eu não uso perfume, o que ajuda bastante. Conseguiu fazer alguma coisa, além de ficar reclamando?"

Gabi: "Eu dei uma olhada nos coitadinhos dos bichinhos, mas não consegui entender os motivos do matador. Ele simplesmente os decapitou, não fez mais nada além disso. Os bichinhos estão com todas outras partes do corpo no lugar, nem as penas perderam! Aliás, você precisa reclamar com o pessoal que tirou o corpo do zelador morto daqui, eles não deviam ter tirado os grous da posição que foram achados!"

César: "Mas ninguém mexeu nas aves. Elas estão no mesmo lugar que foram encontradas."

Gabi: "Claro que não estão! Olha só aqui, não tem nenhum sangue debaixo deles. Deve ter sangrado muito após a decapitação!"

César: "Hã? É verdade! Ele teve ter matado as aves em outro lugar, e as trouxe para cá após terminar o serviço. Vamos tentar achar as manchas de sangue."

Os dois procuram por todo o local onde ficavam os grous. Era um campo bem grande, eles demoram vários minutos para percorrer tudo.

César: "Achou algo?"

Gabi: "Não, a única mancha de sangue é mesmo no local onde o zelador morreu. A única coisa que achei foi essa caixinha de remédios largada no chão."

César: "Hm, isso aqui é um calmante. Remédio controlado, podemos localizar onde foi vendido. Já é uma pista. Vamos tentar encontrar a origem dele..."

Ato 3

Maionese! Gabi não conseguia acreditar no que estava vendo! César estava dirigindo o carro com uma mão e comendo um sanduíche de maionese com a outra! Foi fácil encontrar de qual fármacia tinha saído aquele remédio, mas foi um erro deixar o César dirigir e comer ao mesmo tempo.

Gabi: "Vem cá, não é proibido dirigir e comer maionese ao mesmo tempo?"

César: "Você está confundindo. É proibido falar no celular, o código de trânsito não fala nada sobre maionese."

Gabi: "E se cair maionese no painel? Que coisa mais nojenta! Ninguém nunca reclama quando você faz isso? "

César: "Sim, minha ex-namorada me largou para ficar com um cara que não gostava de maionese."

Gabi: "E você não aprendeu, né? Que teimoso!"

César: "Ser teimoso é o que me tornou investigador. Minha irmã Lucy foi raptada quando pequena. Eu nunca a achei, mas também nunca desisti. Enquanto não acho pistas novas para o caso dela, ajudo em outros casos."

Gabi: "Credo, há quanto tempo você a está procurando? "

César: "Vão fazer quinze anos agora. Tudo que descobri com certeza é que ela está nessa cidade."

Gabi: "É verdade, eu reparei que você não é daqui. Mas não consigo identificar seu sotaque, de onde você vem? "

César: "Eu venho do interior... Ah! Ali está a farmácia! Vamos verificar se obtemos mais alguma pista."

César estaciona o carro, termina com o sanduíche, e os dois dirigem-se à farmácia. Dentro dela há apenas um senhor no balcão, que os saúda ao entrarem.

Farmacêutico: "Bom dia, o que desejam?"

Gabi: "Bom dia! Meu nome é Gabrielle, e meu parceiro chama-se César. Nós somos investigadores, e gostaríamos que o senhor nos ajudasse com algumas informações..."

Farmacêutico: "Que foi? A Marina aprontou de novo? Eu já falei para ela não andar com aquele pessoal!"

Gabi: "Não, não, queremos apenas saber você vendeu algum desses calmantes aqui recentemente!"

César passa a caixinha encontrada no zoólogico. O farmacêutico olha para a caixinha, e sem demorar muito logo responde.

Farmacêutico: "O único que toma esse remédio por aqui é o Paulo, um garoto muito estudioso que mora aqui perto. O coitadinho não consegue dormir direito, por isso toma esses calmantes para pegar no sono."

César: "Você sabe onde ele mora? "

Farmacêutico: "Ah, sim. Ele gosta de ficar na biblioteca lendo, mas já está bem tarde, a essa hora ele deve estar em casa. Espere que eu já passo o endereço para você... "

Com o endereço em mãos, Gabi e César despedem-se do farmacêutico e começam a andar em direção à casa de Paulo.

Gabi: "Você acha que esse garoto pode ser o assassino? "

César: "Talvez. Por outro lado, ele pode ter emprestado o remédio para alguém ou algo do tipo. O único jeito de descobrir é indo até lá e perguntando!"

Ato 4

Já estava bem tarde quando Gabi e César conseguiram achar a casa indicada pelo farmacêutico. A única iluminação do local era a luz da lua cheia, por isso foi bem difícil encontrar o local. A casa era bem simples, não tinha sequer uma campainha. Gabi foi até a porta e bateu várias vezes, porém ninguém atendeu.

Gabi: "Você acha que tem alguém aí? "

César: "Se tiver alguém, deve estar dormindo. Afinal, esse cara toma calmantes, e essas coisas fazem as pessoas dormirem de modo..."

Gabi: "Espera! Você ouviu isso ?!?!"

César: "Ouviu o quê? "

Gabi: "Um grito! Veio lá de dentro!!"

César: "Não ouvi não, acho que você..."

Gabi: "Outro grito!"

César: "Ah, dessa vez eu ouvi também !"

Gabi: "Temos que fazer alguma coisa, ele pode estar matando mais alguém lá dentro!"

César: "Diabos, vou ter que arrombar a porta então!"

César derruba a porta com chutes, e entra, com o revólver já em mãos. A entrada da sala está quieta, mas um novo grito vem do corredor!

Gabi: "Rápido, vamos por ali! "

Ao arrombar uma nova porta, eles encontram uma cena insólita: um garoto magrinho, vestido de preto, e armado com um punhal! César aponta o revólver para ele, mas, ao invés de atacar, o sujeito usa o punhal para fazer um corte no seu próprio braço, e grita de dor em seguida!

Gabi: "Ahn? Ele está cortando a si mesmo? "

César: "Nós somos da polícia! Largue essa faca!"

O garoto obedece, e larga a faca. Os ferimentos em seu braço continuam sangrando, e todo o sangue cai em cima de uma tigela que estava no chão. O garoto pega a tigela, que estava cheia de sangue, e bebe o conteúdo!

Gabi: "Você é louco, guri? Além de ficar se cortando, ainda bebe o próprio sangue? César, segura o garoto ali senão ele vai fazer mais besteiras!"

César segura o garoto, mas ele nem se debate tentando fugir. Na verdade, ele começa a rir!

Garoto: "Hahaha, agora é tarde demais! Ao misturar, em uma noite de lua cheia, meu próprio sangue com o sangue dos Grous que matei, eu fiz o último passo do ritual místico que cria a poção mágica conhecida como Grouselha! Agora eu tenho o poder de invocar demônios das profundezas!"

Gabi: "Tá maluco? Onde você aprendeu essas besteiras? "

Garoto: "Foi naquele livro que está ali na mesa, o Bizarronomicon. Eu o achei por acaso, enquanto passava pela biblioteca!"

Gabi: "Deixa de ser bobo, menino! Essas coisas não funcionam! Se funcionassem, teria que ter um demônio aqui, certo?"

César: "Ah, essas coisas funcionam sim..."

César tira de seu casaco um de seus sachês de maionese picante, e come todo o conteúdo. Logo após, uma incrível transformação começa a ocorrer! A pele de César começa a ficar vermelha, seus caninos ficam mais salientes, um rabo pontudo começa a crescer, e o cheiro de enxofre impregna o ar!

César: "Eu sou Hell-Man, o filho do capeta! Sua poção permite que você invoque demônios, mas não faz com que os controle! Garoto, você vai se arrepender por me fazer mudar para essa forma!"

César, agora transformado no demônio Hell-Man, começa a soltar fogo pelas narinas. O garoto, apavorado, tenta fugir, mas não consegue soltar-se! Ele entra em desespero, e acaba desmaiando de medo!

Gabi: "Você matou o garoto ?!?! "

César: "Não, ele só desmaiou. Depois do susto, nunca mais vai brincar com essas coisas."

Gabi: "Hmm, você é um demônio mesmo?"

César: "Sim, eu tive que sair do inferno para procurar minha irmã desaparecida. Aqui em cima eu uso um disfarce humano. Você não está com medo de mim, como o garoto?"

Gabi: "Não, na verdade eu acho curioso, você é meu primeiro amigo demônio. Quer dizer, eu achava que você nem existia, não, quer dizer, eu sabia que você existia, mas não sabia que era um demônio, ahn, sei lá. Que coisa doida. O garoto não vai espalhar teu segredo não?"

César: "Esse garoto tomava remédio pra cabeça, ninguém vai acreditar nele, mesmo que ele conte. Agora é só levá-lo para a delegacia, ele já confessou a morte dos Grous, deve ter matado o zelador para que ninguém soubesse de seu ritual..."

Gabi: "Ei, César! Se o garoto conseguiu te invocar aqui com uma poção desse livro, será que não aconteceu o mesmo com a sua irmã?"

César: "Sim, é verdade! Deixe-me ver esse Bizarronomicon... Ah! Estão faltando várias páginas! Vou ter que achar onde elas estão, são perigosas demais para ficar soltas por aí!"

Gabi: "Pode contar comigo para ajudá-lo!"

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Autor: Ricardo Bittencourt
Data: maio de 2001
Copyright © 2001-2002 Ricardo Bittencourt