Todos aqueles que visitaram a página do 700km sabem que eu não gostei do filme "Matrix", mas muitos não sabem o motivo. A explicação é simples: eu não achei o filme original. Muitas das cenas são refilmagens diretas de outras fontes, e até os conceitos mais básicos do filme já foram explorados em outros lugares.
Por exemplo, a idéia de que somos apenas simulações feitas em um computador é mais antiga do que se pensa. No século 18, um filósofo chamado David Hume já tinha proposto a mesma idéia. É claro que naquela época não existiam computadores, e por isso ele dizia que o mundo era uma grande simulação feita por Deus, e o que tudo os nossos sentidos captam são apenas impressões desse mundo.
Idéias similares foram surgindo ao longo dos anos. No livro "Alice Através do Espelho", Tweedledee e Tweedledum perguntam à menina se ela sabe o que o dorminhoco Rei Vermelho está sonhando. Quando ela responde que não sabe, vem a revelação: "Ora, ele está sonhando sobre você! Na verdade, você é apenas uma parte do sonho dele. Nunca tente acordá-lo, ou bang!, você irá sumir!"
Minha interpretação predileta desse tema está na revista Flash #123, publicada originalmente em setembro de 1961. Mas, para apreciar melhor a história, é preciso uma pequena introdução ao universo dos super-heróis.
O primeiro super-herói dos quadrinhos surgiu em junho de 1938. Tratava-se, naturalmente, do Super Homem. Com o sucesso do primeiro uniformizado super poderoso, outros heróis foram surgindo. Em 1939 foi criado o Batman, em 40 o Capitão Marvel, em 41 a Mulher Maravilha, e nesse meio tempo inúmeros outros tiveram sua primeira aparição, como o Lanterna Verde e o Flash.
Boa parte do sucesso dos super-heróis vinha da temática de suas histórias. A maior parte deles perseguia nazistas e outros inimigos da América, o que causava simpatia naquela época conturbada. Com o fim da guerra, os heróis foram perdendo mercado para romances, westerns, e, principalmente, quadrinhos de terror. Aos poucos, suas revistas foram sendo canceladas, e os únicos que continuaram em publicação foram o Super Homem, o Batman e a Mulher Maravilha.
Isso só foi mudar em 1954, quando o psicólogo Fredric Wertham publicou o livro "Sedução do Inocente", onde acusava os quadrinhos de perverter as crianças, induzindo-as à delinqüência, ao homossexualismo, e ao comunismo. Com a linha de quadrinhos de terror abalada pelas acusações do médico, os heróis começaram a ganhar mercado novamente.
Muitos heróis anteriormente cancelados voltaram a ser publicados, sendo que o primeiro deles foi o Flash, em outubro de 1956, na revista Showcase #4. Entretanto, Julie Schwartz, o editor da DC na época, achou que ninguém se lembraria do antigo Flash. Por isso, manteve apenas o nome e os poderes do original, criando assim um novo personagem.
Esse novo Flash também teve uma origem reformulada. Barry Allen, um químico a serviço da polícia, é atingido por um raio, enquanto arrumava sua prateleira com todos os elementos químicos conhecidos pela ciência. O acidente bizarro lhe confere super velocidade, e, inspirado em um antigo gibi que lia quando criança, resolve combater o crime com o mesmo nome de seu ídolo: Flash.
Esse novo Flash foi um sucesso de vendas. Suas histórias sempre incluiam elementos de ficção científica, como viagens no tempo. Em setembro de 1961, Julie Schwartz e Gardner Fox, o roteirista da época, têm a idéia de fazer uma história onde o Flash se encontraria com o antigo personagem da década de 40. Mas como fazer isso, se logo na primeira história já havia sido mostrado que o Flash antigo não passava de uma história em um gibi?
A solução bolada por eles foi genial: na revista Flash #123, enquanto fazia um show de caridade para crianças, Flash vibra seu corpo em uma velocidade super-rápida, e desaparece, indo parar em um local desconhecido. Após checar os jornais, Barry Allen percebe que não está em sua cidade, e nem mesmo em seu mundo!
Mas algo nesse mundo lhe parece familiar... Lendo em super velocidade a lista telefônica, Barry acha o mais improvável dos endereços: a casa de Jay Garrick, alter ego do antigo Flash! Uma visita ao local confirma sua teoria, e os dois Flashes tentam entender o que acontece. O diálogo que segue merece reprodução na íntegra:
Barry: "Você era muito conhecido em meu mundo - como um personagem de ficção na revista Flash Comics! Quando eu era uma criança, você era meu herói favorito! Um escritor chamado Gardner Fox escrevia histórias sobre suas aventuras - e dizia que essas histórias vinham a ele em sonhos!"
Barry: "Obviamente, quando Fox estava dormindo, sua mente sincronizava com o campo vibratório da sua Terra! Isso explica como ele sonhava o Flash! A revista foi cancelada em 1949."
Jay: "Incrível! No mesmo ano em que eu - o Flash - me aposentei!"
Flash #123 foi o primeiro gibi a introduzir o conceito de universos paralelos, e também iniciou uma tradição de reunir anualmente heróis atuais e antigos. Essa tradição perdurou por mais de duas décadas, até culminar em 1985 na série Crise nas Infinitas Terras. E, além disso, Flash #123 foi uma revista que influenciou inúmeros escritores ao longo dos anos, incluindo, é claro, os roteiristas de Matrix.